Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Página-Inicial / Blog / Acompanhamento e orientação de crianças e adolescentes com necessidades específicas.

Comportamentos restritos e repetitivos no transtorno do Espectro Autista: uma visão integrativa clínica e neurobiológica

Introdução Os comportamentos restritos e repetitivos (RRBs – Restricted and Repetitive Behaviors) constituem um dos pilares centrais do diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), ao lado das dificuldades na comunicação e interação social. Tradicionalmente, esses comportamentos foram

Introdução

Os comportamentos restritos e repetitivos (RRBs – Restricted and Repetitive Behaviors) constituem um dos pilares centrais do diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), ao lado das dificuldades na comunicação e interação social.

Tradicionalmente, esses comportamentos foram compreendidos como manifestações disfuncionais ou indesejáveis. No entanto, a literatura contemporânea e a prática clínica mostram que essa visão é limitada. Os RRBs são fenômenos complexos, com múltiplas funções, frequentemente relacionados a processos de autorregulação, organização sensorial e adaptação ao ambiente.

Compreender esses comportamentos exige uma abordagem integrativa, que considere dimensões comportamentais, neurobiológicas, cognitivas e emocionais, além do contexto em que ocorrem.

O que são comportamentos restritos e repetitivos

De acordo com o DSM-5-TR, os RRBs englobam um conjunto heterogêneo de manifestações,

incluindo:

  • Movimentos motores estereotipados (como balançar o corpo ou bater as mãos)
  • Uso repetitivo de objetos (girar rodas, alinhar brinquedos)
  • Fala repetitiva (ecolalia, scripts)
  • Insistência em rotinas e padrões rígidos
  • Interesses restritos e intensos
  • Alterações na responsividade sensorial (hiper ou hiporresponsividade) Esses comportamentos estão presentes desde o desenvolvimento inicial, embora possam se tornar mais evidentes conforme aumentam as demandas sociais e ambientais.

Diferentes formas de apresentação

Os RRBs podem se manifestar de maneiras bastante variadas, o que muitas vezes dificulta sua
identificação e interpretação.

Manifestações motoras

Incluem estereotipias simples ou complexas. Um exemplo comum é a criança pequena que realiza movimentos de “flapping” (bater as mãos) ao assistir um vídeo de que gosta muito. Nesse caso, o comportamento costuma estar associado a excitação emocional.

Outro exemplo é o menino que gira repetidamente as rodas de um carrinho, sem utilizá-lo de forma funcional. Aqui, o comportamento pode refletir um interesse sensorial específico, especialmente visual.

Em adolescentes, pode-se observar o balançar do corpo em momentos de espera ou em ambientes pouco estimulantes, funcionando como estratégia de autorregulação.

Manifestações sensoriais

São extremamente frequentes no TEA e podem envolver tanto busca quanto evitação de estímulos.

Algumas crianças apresentam grande desconforto em ambientes com ruído moderado, como shoppings ou salas de aula, levando-as a tapar os ouvidos. Em outros casos, há busca ativa por estímulos, como cheirar objetos ou observar luzes e reflexos de forma prolongada.

Esses comportamentos não são aleatórios refletem a forma como o sistema nervoso processa os estímulos sensoriais.

Rigidez cognitiva e necessidade de previsibilidade

Uma característica marcante é a dificuldade em lidar com mudanças. É comum, por exemplo, a criança que insiste em fazer sempre o mesmo trajeto até a escola e apresenta crise quando há uma alteração inesperada. Outro caso típico é o adolescente que organiza objetos de forma rígida e se desorganiza emocionalmente quando alguém modifica essa organização.

Também pode ocorrer perseveração cognitiva, como repetir perguntas mesmo após já ter
recebido a resposta, refletindo dificuldade em atualizar informações.

Exemplos em crianças menores de 3 anos

  • Aceita beber leite apenas no mesmo copo específico e entra em intensa irritação quando o copo está diferente, mesmo mantendo exatamente o mesmo conteúdo.
  • Insiste em assistir repetidamente ao mesmo trecho de desenho ou à mesma música, chorando ou ficando muito desorganizada quando os pais tentam trocar a programação.
  • Precisa seguir uma sequência rígida na rotina do sono, como sempre pegar o mesmo cobertor, apagar a luz na mesma ordem ou ouvir exatamente a mesma música para conseguir dormir.

Exemplos em escolares

  • Se desorganiza emocionalmente quando há troca inesperada de professor, mudança de sala de aula ou alteração na rotina escolar habitual.
  • Escolar que insiste em utilizar sempre o mesmo material, mesma mochila ou mesmo lápis, ficando irritado quando algum objeto é perdido, trocado ou utilizado por outra pessoa.
  • Apresenta dificuldade em aceitar estratégias diferentes para resolver exercícios matemáticos, insistindo rigidamente em apenas um modo de execução, mesmo quando não funciona adequadamente.

Exemplos em adolescentes

  • Cria rotina extremamente rígida de horários para banho, refeições ou estudos e apresenta irritabilidade importante quando há atrasos ou mudanças inesperadas.
  • Mantém interesse muito restrito e intenso em um tema específico (por exemplo, carros, animes, programação, política ou música), direcionando grande parte das conversas apenas para esse assunto, independentemente do contexto social.
  • Apresenta dificuldade importante em lidar com mudanças de planos sociais, como cancelamento de compromissos, troca de lugares ou alterações combinadas de última hora, podendo reagir com ansiedade, irritabilidade ou isolamento.

    Comportamentos ritualísticos

    Alguns comportamentos seguem sequências rígidas e previsíveis.

    • Uma criança pode, por exemplo, exigir uma ordem específica para realizar atividades simples, como tomar banho ou se vestir.
    • Em outros casos, há recusa em usar roupas diferentes das habituais, o que pode envolver tanto rigidez quanto sensibilidade sensorial.
    • Criança que precisa alinhar os brinquedos sempre da mesma maneira antes de conseguir iniciar a brincadeira e se irrita intensamente quando alguém muda a posição dos objetos.
    • Criança que insiste em cumprimentar familiares ou realizar pequenas rotinas diárias sempre na mesma sequência, repetindo o comportamento até sentir que “ficou certo”.
    • Criança que exige que determinados alimentos sejam servidos de forma específica, como não aceitar que os alimentos se encostem no prato ou precisar usar sempre o mesmo prato, colher ou garrafa.

    Compreendendo a função dos comportamentos

    Um dos pontos mais importantes na prática clínica é entender que os RRBs não ocorrem ao acaso. Eles têm função. Na análise comportamental, esses comportamentos podem ser mantidos por diferentes mecanismos.

    Alguns têm função sensorial, como a criança que gira sobre si mesma repetidamente para obter estímulo vestibular. Outros estão relacionados à fuga de demandas, como a criança que apresenta comportamento
    disruptivo ao ser solicitada a realizar uma tarefa difícil. Há também comportamentos que buscam atenção ou acesso a itens específicos, como crises ao retirar um objeto de grande interesse.

    Na prática, isso significa que dois comportamentos aparentemente iguais podem ter funções completamente diferentes. Um exemplo clássico é o flapping. Em um contexto, pode representar alegria intensa. Em outro, pode estar associado a sobrecarga sensorial ou ansiedade. Em um terceiro cenário, pode funcionar como estratégia de autorregulação durante momentos de espera. Portanto, o comportamento isolado não deve ser interpretado sem considerar o contexto.

    Bases neurobiológicas

    Os RRBs também estão associados a mecanismos neurobiológicos bem descritos. Há evidências de disfunções em circuitos cortico-estriatais, além de alterações no sistema dopaminérgico, que participa do processamento de recompensa e motivação.

    Essas alterações podem contribuir para:

    • Busca por previsibilidade
    • Repetição de padrões
    • Dificuldade em lidar com incerteza
    • Comportamentos de autorregulação Em termos práticos, isso ajuda a entender por que determinados comportamentos são tão persistentes e resistentes à mudança.

    Processamento sensorial e interocepção

    Uma dimensão frequentemente subestimada é o papel do processamento sensorial e da interocepção.

    Muitas crianças com TEA apresentam hiperresponsividade (reação exagerada a estímulos) ou hiporresponsividade (baixa percepção), além de padrões de busca sensorial. Isso impacta diretamente o comportamento.

    Por exemplo, uma criança que aceita apenas alimentos crocantes pode estar respondendo a características sensoriais específicas da textura. Outra pode apresentar grande seletividade alimentar associada à necessidade de previsibilidade.

    A interocepção percepção de sinais e sensações internas como fome, saciedade, calor frio, sede, dor, enjoo, cansaço, falta de ar ou desconforto também pode estar alterada. Algumas crianças só percebem que estão com fome quando já estão irritadas, o que pode gerar padrões comportamentais difíceis de manejar.

    Além disso, o sistema de recompensa pode estar envolvido, fazendo com que a alimentação assuma funções de regulação emocional.

    Relação com funções executivas

    Déficits em funções executivas são comuns no TEA e contribuem significativamente para os RRBs.

    Dificuldades em flexibilidade cognitiva, controle inibitório e planejamento ajudam a explicar por que determinadas crianças têm grande dificuldade em interromper atividades ou mudar de contexto.

    Um exemplo frequente é a crise ao precisar sair de uma atividade altamente reforçadora, como videogame, para uma atividade menos motivadora, como jantar. Outro exemplo é a perseveração em uma atividade, mesmo quando o contexto já mudou.

    Diagnóstico diferencial

    Nem todo comportamento repetitivo no TEA deve ser automaticamente interpretado como parte do transtorno.

    É fundamental diferenciar RRBs de outros quadros, especialmente transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtornos de ansiedade. No TOC, os comportamentos costumam estar associados a pensamentos intrusivos e são vivenciados como desconfortáveis (egodistônicos). Já no TEA, frequentemente são egossintônicos e relacionados à previsibilidade ou interesse.

    Na ansiedade generalizada, há preocupação difusa e excessiva com múltiplos temas, enquanto no TEA a dificuldade está mais relacionada à mudança e imprevisibilidade essa distinção tem implicações diretas no manejo.

    Quando intervir

    Nem todo comportamento restrito ou repetitivo deve ser alvo de intervenção. A decisão deve considerar alguns critérios fundamentais:

    Intervenção é indicada quando há prejuízo funcional, sofrimento significativo, risco (como autoagressão) ou impacto importante na aprendizagem e socialização. Por outro lado, comportamentos que têm função autorregulatória e não geram prejuízo não devem ser automaticamente eliminados.

    Por exemplo, um flapping leve em contexto de alegria não exige intervenção. Já um
    comportamento autoagressivo exige abordagem imediata.

    Implicações práticas para o manejo

    O manejo dos RRBs deve seguir uma abordagem hierárquica e integrada. Inicialmente, é fundamental ajustar o ambiente e os estímulos sensoriais. Em seguida, realizar análise funcional do comportamento. O ensino de comunicação funcional é um passo central, especialmente para comportamentos relacionados à fuga ou frustração.

    Também é importante trabalhar regulação emocional e previsibilidade, com uso de rotinas estruturadas e antecipação de mudanças. A medicação pode ser considerada em casos específicos, especialmente quando há irritabilidade significativa, ansiedade ou comportamentos disruptivos. No entanto, seu impacto sobre os RRBs nucleares é limitado, e ela deve ser sempre parte de uma abordagem mais ampla.

    Síntese clínica

    Os comportamentos restritos e repetitivos no TEA não são apenas sintomas a serem eliminados. São expressões de um funcionamento neurobiológico particular, frequentemente com funções adaptativas.
    A compreensão adequada desses comportamentos exige análise do contexto, da função e do impacto na vida do indivíduo.

    A abordagem clínica mais eficaz é aquela que respeita essa complexidade, evitando simplificações e priorizando intervenções individualizadas, baseadas em evidências e centradas no paciente.


    Referências

    • American Psychiatric Association. DSM-5-TR. 2022
    • Lord C et al. Autism spectrum disorder. Lancet. 2020
    • Leekam SR et al. Restricted and repetitive behaviors in autism. Psychological Bulletin. 2011
    • Uljarević M et al. The function of restricted and repetitive behaviors in autism. Autism Research. 2017
    • Boyd BA et al. Phenotypic characteristics of RRBs. Journal of Autism and Developmental Disorders. 2012
    • Salpekar JA, Scahill L. Psychopharmacology in ASD. Child and Adolescent Psychiatric Clinics. 2021
    • NICE Guidelines – Autism spectrum disorder

    Esse artigo foi escrito por:

    Foto de Cristiano Freire

    Cristiano Freire

    Médico especialista em Neuropediatria, dedicado ao diagnóstico, acompanhamento e orientação de crianças e adolescentes com necessidades específicas.

    VEJA TAMBÉM: