O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades persistentes na comunicação social e por padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.
O diagnóstico é clínico, baseado em critérios formais descritos no DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e no CID-11 (Classificação Internacional de Doenças da OMS).
Para o diagnóstico:
- Todos os três critérios do domínio A devem estar presentes
- Pelo menos dois critérios do domínio B
- Com início na infância, ainda que os sintomas fiquem mais evidentes apenas quando as demandas sociais aumentam.
A. DÉFICITS PERSISTENTES NA COMUNICAÇÃO E INTERAÇÃO SOCIAL
(TODOS OS TRÊS SUBITENS DEVEM ESTAR PRESENTES)
1. Déficit na reciprocidade socioemocional
Refere-se à dificuldade em iniciar, manter e sustentar trocas sociais naturais,
recíprocas e espontâneas.
Exemplos:
1: A criança fala longamente sobre seu tema de interesse (dinossauros, planetas, jogos), mas não percebe quando o interlocutor perde o interesse, não faz pausas nem muda o tema.
2: Quando alguém conta algo triste, a criança não demonstra empatia, não pergunta
como a pessoa está nem reage emocionalmente de forma compatível.
3: O paciente responde apenas quando é questionado diretamente, raramente inicia
conversas espontaneamente.
4: Em brincadeiras em grupo, não compartilha conquistas (“olha o que eu fiz”), não
busca validação social.
5: Durante uma consulta, responde de forma objetiva, sem expandir o assunto, não
devolve perguntas ao examinador.
2. Déficit nos comportamentos comunicativos não verbais
Envolve prejuízos no uso de contato visual, gestos, expressões faciais e postura corporal para fins comunicativos.
Exemplos:
1: Contato visual pobre ou ausente durante a fala, mesmo quando chamado pelo nome.
2: Não aponta para mostrar algo de interesse ou não olha quando alguém lhe mostra algo (atenção compartilhada).
3: Expressão facial neutra, pouco variada, mesmo em situações emocionalmente marcantes.
4: Dificuldade em interpretar gestos de terceiros (não entende quando alguém aponta, acena ou faz sinal de silêncio).
5: Fala adequada, mas sem acompanhar de gestos naturais ou expressividade corporal.
3. Déficit no desenvolvimento, manutenção e compreensão de relacionamentos
Dificuldades em ajustar o comportamento ao contexto social e em construir vínculos
compatíveis com a idade.
Exemplos:
1: Prefere brincar sozinho mesmo em ambientes com outras crianças.
2: Não compreende regras implícitas de jogos sociais (turnos, cooperação, negociação).
3: Interage melhor com adultos do que com crianças da mesma idade.
4: Não percebe ironia, duplo sentido ou brincadeiras sociais.
5: Demonstra pouco interesse espontâneo por amizades ou encontros sociais.
B. PADRÕES RESTRITOS E REPETITIVOS DE COMPORTAMENTO
(PELO MENOS DOIS DOS QUATRO SUBITENS DEVEM ESTAR PRESENTES)
1. Comportamentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados movimentos repetitivos, fala ecolálica ou uso incomum de objetos.
Exemplos
1: Flapping (bater as mãos) quando está animado ou ansioso.
2: Gira rodas de carrinhos repetidamente em vez de brincar de forma funcional.
3: Repete frases de desenhos ou vídeos fora de contexto (ecolalia tardia).
4: Organiza objetos sempre em linha ou por cor/tamanho.
5: Usa expressões idiossincráticas (“frases próprias”) que só ele compreende.
2. Insistência na mesmice e rotinas rígidas
Necessidade intensa de previsibilidade.
Exemplos:
1: Crise emocional intensa ao mudar o trajeto da escola.
2: Só aceita comer determinados alimentos, sempre preparados da mesma forma.
3: Exige seguir sempre a mesma sequência para dormir.
4: Dificuldade marcante com transições (“parar de brincar”, “hora de sair”).
5: Ritualiza cumprimentos ou despedidas.
3. Interesses restritos e fixados
Foco intenso e persistente em temas específicos.
Exemplos:
1: Interesse excessivo por mapas, capitais ou bandeiras.
2: Passa horas falando sobre um único tema sem perceber o cansaço do outro.
3: Forte apego a objetos incomuns (tampas, fios, embalagens).
4: Coleciona informações de forma obsessiva.
5: Interesse desproporcional por datas, horários ou números.
4. Alterações sensoriais
Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais.
Exemplos
1: Tampas os ouvidos com sons comuns (secador, liquidificador).
2: Recusa determinadas roupas por causa da textura.
3: Não reage adequadamente à dor ou ao frio.
4: Cheira objetos repetidamente.
5: Fascínio por luzes, ventiladores ou movimentos giratórios.
Aspectos importantes na prática clínica
Nos quadros leves ou limítrofes, os sintomas podem ser mais sutis. Frequentemente:
- O paciente tem linguagem preservada, mas com prejuízo pragmático.
- Há boa inteligência, porém dificuldades sociais.
- O sofrimento aparece mais na adolescência, quando a complexidade social aumenta.
- Muitas vezes há comorbidades: TDAH, ansiedade, transtornos de aprendizagem.
Nesses casos, é essencial:
- Avaliar história do desenvolvimento.
- Observar em múltiplos contextos (casa, escola).
- Utilizar escalas padronizadas que auxiliam, mas não definem o diagnóstico!
- Avaliação multidisciplinar.
Conclusão
O diagnóstico de TEA exige uma análise cuidadosa, longitudinal e contextualizada. Nos quadros leves, a sutileza dos sinais pode levar a subdiagnóstico ou confusão com traços de personalidade. Por isso, a avaliação deve sempre integrar história clínica detalhada, observação direta e instrumentos padronizados, evitando conclusões apressadas.
Referências
- American Psychiatric Association. DSM-5-TR: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5th ed., text revision. 2022.
- World Health Organization. ICD-11: Autism Spectrum Disorder (6A02). https://icd.who.int Lord C, Elsabbagh M, Baird G, Veenstra-Vanderweele J.
- Autism spectrum disorder. Lancet. 2018;392(10146):508-520. PMID: 30078460 – Hyman SL et al.
- Identification, Evaluation, and Management of Children With Autism Spectrum Disorder. Pediatrics. 2020;145(1):e20193447. PMID: 31843864 Lai MC, Lombardo MV, Baron-Cohen S.
- Autism. Lancet. 2014;383(9920):896-910. PMID: 24074734

